Falando de amor

Hoje quero falar de amor e me permitir ser ridícula (vocês sabem: “todas as cartas de amor são ridículas”). Não tem como falar de amor e não ser assim (além de brega, e repetitiva, e melosa)! E hoje eu quero ser tudo isto.

Durante muito tempo tive medo de me envolver com alguém de fato. Tenho amigos que também sentem muito medo de amar, mas racionalizam a questão, citando conceitos de liberdade, modernidade etc.
Já minha maior racionalização era a minha vontade de não ser medíocre. Imagine-se numa vida como a de qualquer outra pessoa: acordar cedo; arrumar os filhos para a escola; ir trabalhar; pegar os filhos na escola; esquentar o almoço (ou ter dor de cabeça com a empregada); esperar o marido; dar comida pro cachorrinho; reclamar porque o menino tirou nota baixa; voltar pro trabalho; agüentar encheção de saco do chefe; chegar ao final do dia em casa, encontrar a pia cheia de louça suja; ligar pro marido, que está tomando uma cervejinha com os amigos; ouvir menino gritando a noite toda; dizer que está com dor de cabeça, antes de dormir.
Exageros à parte, posso variar a descrição acima, mas fará muita diferença? “A mediocridade, na natureza humana, é algo universal”. Estou citando o Felipe. Hoje ele me disse que ser medíocre, pra Nietzsche, é olhar o abismo e o abismo olhar dentro de você. Falou também em Donald Schüller (não conheço – o que seria de mim sem meus amigos e seus vastos conhecimentos?) – para ele, já que o abismo sempre existirá mesmo, o melhor é olhá-lo, mas não vê-lo.

E o que isso tudo tem a ver com o amor? Você decide ver ou não o abismo (grandeza, conformismo, ignorância, seletividade?). As dúvidas e os medos estão dentro de nós, mas a vida é do lado de fora. Inevitavelmente, a vida é!!! E ela pode ser diferente, se você tem um amor ou não.

Escrever pra esse blog não é nada, se comparado ao amor do Felipe: “está chovendo aqui; está friozinho; vou pra casa daqui um pouco ficar na cama com a minha esposa; ler o jornal; fazer uma janta... Swift comparado a isto é pura embromação! E, ao mesmo tempo, se não tivesse um amor, seria meu dia: ler Swift”.
O amor não é lindo? O amor é lindo!

Quero um amor que me faça ganhar os sentidos: que o meu arroz com feijão fique mais gostoso, que o filme da sessão da tarde (dublado e tudo mais) seja o melhor programa, que a seca de Brasília e o calor escaldante sejam a minha certeza de existir.
Quero um amor que me faça largar o meu emprego medíocre, as minhas poucas convicções, aquilo que já não me dá segurança.
Quero um amor que viaje comigo pra Madri, pra Bali, pra Terra do Nunca ou pra Terra de Ninguém; que fique quietinho comigo em casa, se estivermos com preguiça.

Quero um amor que me ame! Porque só o amor (e a arte) pode nos fazer mais felizes!


♥♥♥
O "Falando de amor" foi publicado no Chatices Existenciais em novembro de 2005. Dediquei-o ao Felipe - um amigo intelectual, ateu, totalmente descrente da humanidade, que ficou fofo de uma hora pra hora, porque foi acertado pela flecha do Cupido!
Resolvi postar os poucos textos de que gosto do Chatices Existenciais, para excluí-lo, em breve, desse mundo virtual.
A Tatá, uma das minhas amigas geniais, também escreveu um texto que dialoga de certa forma com o Falando de amor. Ficou perfeito: Segredos.
Beijos e boa semana a todos!

Ganhei 11 margaridas!

Thito disse...

Eu também quero um amor (nisso está implícito que eu seja amado também)!!

Que me faça ser o que eu ainda falto ser...

Afinal de contas, all we need is love ...

Graziele Alencar disse...

Está implícito porque você bate bem da bola (ou, para algumas pessoas, porque ainda não é evoluído...)!
Tem muita gente que ama sem precisar de retorno, o que eu acho doentio, apesar de muita gente achar sublime.
Lembre-se do texto de São Paulo que diz "o amor não procura os seus interesses; o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta", inclusive, a falta de retorno.
"Love is all you need"...

zek disse...

o que seria da vida sem amor ???
bacana teu post !!!

Thito disse...

Mas o amor que falo é o amor de homem para mulher, um casal, um par. Amor carnal.

Até concordo que alguns amores não cobram fatura, mas o orçamento até chegar lá é bem caro, então alguém deve estar disposto a bancar.

Mudando de assunto: tem um meme pra ti no meu blog. =D

PS: Unfortunelly, love isn't all i need. But is important.

Daniel disse...

Faço minhas as palavras do Thito. Quero amar e ser amado. Afinal, os feios também amam rsrsrs. Bjus e boa semana.

http://so-pensando.blogspot.com

Tâmara disse...

Grazie, querida....tb ando atras de uma mor que me ame....

obrigada pela visita...

Volte mais vezes...

Bjao!!

F. S. Júnior disse...

"eu quero a sorte de um amor tranquilo, com o sabor de fruta mordida" - gosto desta devassidão do cazuza, que como poucos, sabia definir certas vontades humanas universais... também quero um amor... all we need is love - pra engrossar o coro... =D
terrível é pensar na multidão de pessoas separadas por milhões de abismos e que não conseguem se encontrar... afinal, se todos precisam e querem o amor, por que nem todos o encontram? tens alguma receita? certamente não... não existe...

lella disse...

Receber colo e carinho é muito bom! E sem ter vergonha de assumir o lado romântico de ser.

Beijo grande,

Jana disse...

Mas é assim querida a gente se fecha até encontrar alguém que nos abra... Assim que funciona...

Eu tb quero tudo isso, mas ando já achando que não me pertence rsrs

beijos

Graziele Alencar disse...

Comentário que quero guardar:

Em 23/11/05, Tatá disse:

"Que inspiração, Grazie! Adorei suas reflexões. Muito do que o texto trata tem a ver com o que venho pensando comigo ultimamente. Temos o poder de nos permitir viver a vida de uma maneira melhor do que nos parece. Porém às vezes nos aprisionamos ao chão pressionados por um peso que não precisávamos estar segurando. Tudo fica muito penoso, complicado e feio. A vida não deve ser levada a sério demais. Quando escolhemos a leveza, a vida, com ou sem amor, torna-se apaixonante. Claro que essa escolha não é tão fácil quanto parece. Há momentos em que fazemos questão de nos sentir vítimas de algo que está fora de nosso alcance, apenas para justificar nossa covardia diante da vida. É humano! Entretanto, no final, o prejuízo recai sobre nós mesmos. Então, sejamos leves! Assim as chances de coisas legais acontecerem são maiores, inclusive o amor. Até a próxima."

Tatá Ninômia disse...

Grazie,

Que delícia está sendo reler seus textos.

Nossa, quanta coisa escrevi àquela época, em 2005!

É o poder dos seus textos: nos dá inspiração.

Até a rotina do cotidiano pode ter um sentido. A questão é achar o caminho das pedras, seja por meio do amor ou do tesão pelo que fazemos, algo que seja capaz de atribuir significância à nossa breve existência. A questão é o caminho...

E sim, acredito no "é dando que se recebe" (e vice-versa), para o bem ou para o mal. A história de "mão única" não é saudável!

"And in the end the love you take
is equal to the love you make"

Grande beijo.