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Camila, bandida: meu alterego?

Há alguns anos, quando inaugurei esse meu espaço virtual que eu adoro, tive de pensar num título para ele. Veio-me então uma necessidade real minha, a de exercitar o amor. E, como tudo meu sempre acontecia primeiro no mundo das ideias, deliciada que sou com as palavras, resolvi chamá-lo como todos vocês já sabem.


Identifico-me muito com uma música do Barão Vermelho que diz “eu não amo ninguém, e é só amor que eu respiro”. Exageros à parte, sou muito difícil de amar mesmo, meu coração é tão pequenininho que posso contar nos dedos quem cabe nele. Ironicamente (ou quiçá isto seja somente mais um paradoxo da condição humana), meu trabalho é ajudar as pessoas, e é exatamente pensar no Outro que dá um pouco de sentido pra minha vida (ajudar os outros, todavia, não é um ato de amor da minha parte, é apenas a necessidade de preencher um vazio incomensurável que há em mim).


Acontece, no entanto, que eu tenho sorte de poder amar pessoas que me conhecem tão bem e que me respeitam exatamente como sou. Poderia citar algumas delas aqui (poucas, claro), mas eu quero falar da Camila, que é minha amiga, minha comadre e minha irmã de coração. Nossa amizade vai debutar no final deste ano, o que eu considero como um presente dado por alguma força maior, a qual eu me permito não ter que nomear nem agora nem em momento algum.


Quando nos conhecemos, a Camila mostrava-se pro mundo e já era emocionalmente como agora. Eu era a bonequinha de porcelana, bem cuidada, mimada e protegida numa redoma. Quando dei meu primeiro beijo, a Mila já fazia descobertas mais ousadas. Se eu era bossa nova, ela era axé. Eu era ensimesmada; ela, festa.


E, apesar de tantas diferenças, conseguimos ser a exceção do que Caetano disse “é que narciso acha feio o que não é espelho...”. Amar no outro o que temos em nós mesmos realmente é muito mais fácil, e é por isso que considero essa minha amizade com a Mila um exercício exemplar do amor. Exercício diário de convivência: de eu sair para as baladas, que ela amava e continua amando, e fazer parte daquilo por ela; de ela ler “Os mitos platônicos” comigo para o trabalho da minha faculdade; de sabermos o que a outra está sentindo só pelo tom da voz; de ela fazer um monte de “loucura” e me proteger de tudo aquilo, por saber que eu não daria conta; de ficar do meu lado quando eu decido que quero mesmo fazer as “loucuras” que ela fazia; de sumirmos, quando a outra precisa de um tempo; de não ter obrigação de ligar nem de nos falarmos todos os dias.


Enfim, a Camila é uma das raras pessoas que conhece todas as minhas facetas – minha festa e minha depressão; minha meiguice e minha indignação; minha bondade e minha vingança; meus erros e meus acertos; meu pai e minha mãe (inclusive o que tem deles em mim); minha MPB e meus sambas (que eram só dela); minha renda e meu rebu; meu salto alto e minha rasteirinha; minha maquiagem e minha cara lavada; a manauara, a goiana e a brasiliense; a cult e a alienada.


Exercitar o amor é tentar amar sem querer transformar o outro em si mesmo. E eu tenho muita sorte de ter um amor assim (só pra não gerar a dúvida daqueles que não entendem o que é tudo isso: amor completamente assexuado... hahahaha).

Ao vovô

Há três anos, escrevi o texto que quero postar hoje aqui, feito pro meu avô-materno, que na época completava 84 anos de vida. Foi nessa ocasião, talvez por estar tão longe dele, que descobri amá-lo mais do que eu imaginava. Ele foi uma das figuras mais fortes e mais interessantes da minha infância.
Hoje o vovô está completando 87 anos. Parabéns pra ele!

Descobri subitamente um amor tão grande em mim, um amor que nunca imaginei existir pelo meu avô. Encontrei-o depois de mais de um ano, ele já doentinho, mas com a mesma cara de sapeca, não falando coisa com coisa (que pode ser de Alzheimer ou de sua criatividade). Emocionei-me. Não sabia que amava tanto meu vozinho (parece que a falta nos revela o quanto gostamos seja lá do que).

Ele parece uma personagem de García Márquez, com suas histórias fantásticas – e muitas reais (mesmo sendo nonsenses), porque eu mesma as presenciei.

Ele gostava de trocar o nome das pessoas – a tia Rosângela sempre era a Josefina, eu podia ser a Maricota. E, se perguntássemos aonde ele ia, sempre era pra Cachoeirinha.

Ele, o senhor Cortez ou o tenente Cortez ou o Chico (pra quem queria fingir intimidade, porque esse é o único Francisco que conheço que nunca foi Chico na vida), quer ir pra Bolívia porque seus olhos ficam azuis lá (já são verdes, e uma parte de sua família mora lá).

Meu avô tem o sangue forte: todo morcego que já o mordeu morreu depois de fazê-lo. Ele gostava muito de passear pelo interior do Amazonas, dormir em rede, e, muitas vezes, ao acordar, via-se mordido com o morcego morto ao lado. Isto eu nunca vi!

Vovô já salvou a vida de muitos animais – ele criava alguns – com um remedinho milagroso, o bálsamo mundial. Certo dia, uma mucura comeu um terço de uma galinha viva (do rabo pra frente), no quintal do meu avô. Ele foi seu cirurgião: derramou meia garrafa de bálsamo dentro da galinha e a costurou. A coitada sobreviveu, mutilada sim, mas continuou cantando toda faceira pelo quintal, por muito tempo ainda; não ficou com traumas; não se importou de ter ficado sem as ancas (e galinha tem anca?); e continuou botando ovos!

O senhor Cortez gostava de misturar água no refrigerante – e não era pra economizar, porque ele nunca foi dessas coisas; ele só achava mais gostoso com água (gosto é gosto!). Se eu queria um real dele, para lanchar na escola, era melhor pedir-lhe dois, porque ele só sabia dar a metade. E, quando me buscava na escola, voltava dirigindo seu monza, ocupando toda a pista.

Nós brigávamos de vez em quando, e ele dizia a minha mãe pra ela dar um jeito “na sua filha”, porque eu reclamava e discordava dele. Mas, também, o pegava contando pros amigos como a neta dele era esperta e inteligente... ele sentia muito orgulho de mim, só porque eu tirava notas boas na escola. Meu avô sonhava comigo no colégio militar; chegou a convencer meus pais a me inscreverem para a prova de admissão lá. Mas fui mais convincente que ele: apesar de passar na prova, consegui continuar estudando na mesma escola de sempre, que eu amava.

Vovô, como pernambucano que é – e de Exu! – ainda guarda sotaque, principalmente, em palavras como “tia” e “dia”. Acho que, por isso, adoro sotaque nordestino.

Amanhã, meu vozinho vai completar 84 anos. Estamos distantes – e isto explica tantos verbos no passado – e sinto saudades. Gostaria de abraçá-lo e ouvir suas brincadeiras, de admirar sua boa imaginação, de ouvi-lo trocar meu nome e de perguntar de quem sou filha... Adoraria passar a mão na sua cabecinha branca...

De novo

Lembrar: não falar com ele no msn, nem no orkut, nem trocar email. Quando é pra dar certo, dá certo e ponto final; nada de pedras no caminho.
PS:
Acho que o amor de Jean Paul Sartre e de Simone de Beauvoir foi o que se pode chamar de verdadeiro, porque foi o amor que não escraviza; não sufoca; não cobra; não precisa exigir que se fale a verdade, porque ela está implícita (até a omissão é real); não é possessivo; não quer ser o melhor para os outros; não quer modificar / moldar o outro; não precisa de aplausos pra acontecer.
Minha conversa está parecendo com uma passagem da Bíblia, de Paulo, em Coríntios, e o que me passou agora, fazendo essa descrição tão “pauliana” do amor (não vou dizer cristã, porque seria muito ampla), é que eles – Sartre e Beauvoir – eram ateus. Pois é: parece que quando se tem liberdade, quando não se precisa expiar nenhum pecado, quando não se tem dívida a pagar, fica mais fácil amar, transar, sentir, querer, desejar, odiar, ou seja, ter congruência no pensar, no sentir e no agir.
Se uma mulher resolve continuar com seu marido depois de uma traição porque acredita que isso é o melhor pra sua família... se um homem resolve casar com uma mulher porque ela está esperando um filho seu, e isso seria a melhor atitude de um homem sério e honesto... Eu penso que as pessoas vão se anulando porque têm verdades pré-concebidas pras suas vidas, ganharam um manual que pode lhes garantir a felicidade, se não nessa vida, quem sabe em outra? E elas vão ficando cada vez piores, porque há incongruência entre seu sentir e seu agir. Não dá pra amar desse jeito!
Para amar é preciso ser congruente e aceitar o outro plenamente congruente. É preciso abrir mão do egoísmo e admitir, como Danielle Miterrand, que “não somos o centro amorável do mundo do outro”. Mas vê só que grandioso é esse amor verdadeiro: "Fizeram o que bem entenderam, naquela fidelidade de voltar sempre à mesma pessoa".
E o respeito vem como conseqüência porque eu sou eu e você é você. Eu não preciso ser o que você quer que eu seja nem vice-versa. Se eu preciso exigir que você me diga a verdade, a verdade não será sua, não será minha, e trará, talvez, muitas conseqüências ruins. Se o silêncio é seu, ele é muito mais sincero que a minha verdade cobrada, e não trará dor, porque ele tem motivo, ele tem um pouco de você e um pouco de mim também.
E a gente vai amando, não dessa forma ideal, mas do jeito que dá... porque esse amor verdadeiro é demais pra mim e pra quase todo mundo. O amor verdadeiro não cabe em mim ainda, mas eu já posso, ao menos, compreendê-lo e admirá-lo. Talvez a verdade também não me caiba ainda.
Com essa nossa pouca disposição ao amor verdadeiro, só estamos podendo fazer juras de necessidades eternas - “preciso de você por toda a minha vida; preciso que você me faça uma grande surpresa no meu aniversário; preciso que você me apresente como a sua namorada (a sua escolhida, afinal! como sou especial...); preciso que você me diga o quanto estou gostosa; preciso que você reclame do meu arroz papa; preciso que você me xingue de puta de vez em quando” – ou de tesão eterno – “quero te dar três vezes ao mês, quando eu estiver no meu período fértil, cheia de vontade e prometo não estar cansada nem com dor de cabeça nesses dias!”
E a gente vai levando. E a gente vai amando.
(ou tentando, ou querendo, ou...)