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Na falta da minha terapeuta


seria perfeito se quando eu me reinventasse ou quando tentasse fazer de mim algo novo que eu considerasse melhor ou mais fácil talvez as consequencias viessem como uma brisinha num dia de calor mas dentro de mim formam-se tufões e tempestades porque eu realmente quero continuar sendo inadequada e careta as pessoas me cansam com suas futilidades com o seu passar superficial pela vida o não olhar nos olhos o não falar cara a cara eu simplesmente digo não e tentar dizer sim pode me fazer doer não tenho vergonha de dizer que doi quando todo mundo tem a máscara da alegria grudada na cara de plástico eu sou sensível sim e por isso eu consigo ver os outros eu até me engano tantas vezes mas já sou dura o suficiente não posso perder a ternura como disse Che só sei que sem amor ou sem a expectativa de eu não seria a putinha de Brasília nem do príncipe William

A imagem é "Os amantes", de René Magritte, que esteve na primeira postagem deste blog e vem bem a calhar no momento.

Aniversário

A cinco dias de completar 28 anos, lembrei-me de um texto que escrevi perto do meu aniversário de 25, e resolvi postá-lo aqui. Eu estava numa crisesinha existencial. Parece que as coisas estão mais fáceis agora (mas eu gosto do texto!)

Estou a poucos dias de completar um quarto de século vivido, mas não posso concluir um texto que comecei, há uns três dias, sobre o primeiro mês do ano:

'Janeiro sempre é o melhor mês do ano pra mim: tem cheiro de férias, gosto de pessoas amadas, a vontade da preguiça, o sonho de olhos aberto e o calor do meu aniversário!'

Meu início de ano vai bem, obrigada, mas estou contando com meses muito melhores para esse ano.
Estou como Gregor Samsa, com uma maçã apodrecendo no dorso, grudada, depois de ter sido atirada por alguém assustado, por não me achar muito agradável.

Tenho quase 25 anos, e não sou quem eu queria ser, quando eu tinha 12. Também não quero mais ir aonde eu já quis, não amo mais muitas pessoas por quem chorei, não ouço mais as músicas que ouvia, não tenho mais aqueles sonhos, minhas verdades irrefutáveis já são duvidosas, e eu até gosto do mau cheiro que vem da maçã.

Quando eu tinha 12 anos, podia apontar o dedo pra quem quer que fosse, porque eu ainda tinha a vida toda pela frente e, da caverna, eu só conseguia ver o futuro que tinham pintado pra mim. Era um futuro brilhante, porque eu era linda, inteligente e amada: o mundo também me receberia dessa forma. Hoje, a tinta do quadro está derretida, e eu prefiro assim: gosto do surrealismo, do dadaísmo, do fantástico.

Posso ver no meu quadro o que eu quiser? Posso classificá-lo como bem entender? Posso fazer uns acertos, passar um pano molhado, fazer uns rabiscos? Quem se importa com a aceitação do público ou com a dos especialistas no assunto?

Não sendo uma Monalisa, quero apenas poder sorrir, ter aonde e com quem ir, poder errar, chorar e voltar atrás, e começar, todo dia, “tudo novo de novo”, se for da minha vontade.

E quem quiser que pinte melhor, porque eu não tenho o talento de Picasso. E quem quiser que critique ou aprecie melhor, porque isto também é uma forma de fazer arte, não é?

Sonho não (ou mal) interpretado

. o avesso da coisa. a costura à mostra. a etiqueta. a falta de etiqueta, porque esta incomodava o pescoço. o tamanho. um número a menos. eu imprensada. folgada nunca – entra muito ar! começo depois do fim – inevitável. a etiqueta da minha blusa incomoda o seu pescoço. não vou cortá-la. porque não quero cortá-la. nela tem o meu tamanho. e não sou muito pequena. preciso lembrar-me sempre disso: eu visto M, às vezes P, se eu quiser me mostrar um pouco mais. mas não me dê uma blusa G. nela caberá além de mim. e não poderei preenchê-la.

Clarice e eu

Conheci Lóri um mês depois de eu completar quinze anos. Ela me mostrou que existia algo muito maior do que eu havia descoberto (e continuaria descobrindo) durante toda minha vida. Porque, quando a gente nasce, vem a palmadinha (e o choro), vem o colo e o leite (e o prazer), vem o Outro (e o Eu). O Eu é só uma conseqüência, muitas vezes, ignorada.
Com a Lóri, eu me vi. Não sou mais só uma conseqüência. Posso pensar sobre o que sinto e sentir o que penso. Posso pensar no que o Outro significa pra mim e em como isto se transforma todo dia.
Passamos pelo grande desafio da subjetividade: a esfinge que não nos deixa sossegar, “decifra-me ou devoro-te”. Ela saíra agora da voracidade de viver. E eu deparei-me com a minha verdadeira essência e com a minha existência. A existência que nos aprisiona à liberdade, irremediavelmente. Mas, se meu corpo é bem menor que meu pensamento, não tenho a capacidade de fazer uso da minha liberdade (?); se minha vontade é bem maior que a minha pequena condição (aonde vai o meu corpo?), estou irremediavelmente condenada. E “a condição do Universo era tão grande que não se chamava de condição” (é agora que vejo a minha?).
Ulisses, o homem de Lóri (sim, o herói grego e também o cachorro de Clarice), diria: “a condição não se cura, mas o medo da condição é curável”. E aprendemos que se deve viver (e amar, e ser feliz!) apesar de. O apesar de gera a angústia. E é sempre bom não ter certeza de tudo. Mas a dúvida generalizada também é a porta do abismo, onde há o silêncio. O silêncio “é a profunda noite secreta do mundo”. Na noite, podemos encontrar fantasmas, mas podemos encontrar os maiores sonhos. Parece que, na noite, a liberdade enlarguece. Mas “ser grande dentro de si” pode doer. Portanto, agora é necessário aprender a ser livre pra fora; aprender, no além de ser, viver.
“Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”. Quem escreverá um pra mim? Clarices não existem nem Ulisses nem...
♥♥♥
Ainda no propósito de postar os raros textos que gosto das Chatices Existenciais, publico o "Clarice e eu" aqui. Ele é de abril de 2006.
Eu havia prometido uma continuação pra ele. Talvez ela saia por agora.

Falando de amor

Hoje quero falar de amor e me permitir ser ridícula (vocês sabem: “todas as cartas de amor são ridículas”). Não tem como falar de amor e não ser assim (além de brega, e repetitiva, e melosa)! E hoje eu quero ser tudo isto.

Durante muito tempo tive medo de me envolver com alguém de fato. Tenho amigos que também sentem muito medo de amar, mas racionalizam a questão, citando conceitos de liberdade, modernidade etc.
Já minha maior racionalização era a minha vontade de não ser medíocre. Imagine-se numa vida como a de qualquer outra pessoa: acordar cedo; arrumar os filhos para a escola; ir trabalhar; pegar os filhos na escola; esquentar o almoço (ou ter dor de cabeça com a empregada); esperar o marido; dar comida pro cachorrinho; reclamar porque o menino tirou nota baixa; voltar pro trabalho; agüentar encheção de saco do chefe; chegar ao final do dia em casa, encontrar a pia cheia de louça suja; ligar pro marido, que está tomando uma cervejinha com os amigos; ouvir menino gritando a noite toda; dizer que está com dor de cabeça, antes de dormir.
Exageros à parte, posso variar a descrição acima, mas fará muita diferença? “A mediocridade, na natureza humana, é algo universal”. Estou citando o Felipe. Hoje ele me disse que ser medíocre, pra Nietzsche, é olhar o abismo e o abismo olhar dentro de você. Falou também em Donald Schüller (não conheço – o que seria de mim sem meus amigos e seus vastos conhecimentos?) – para ele, já que o abismo sempre existirá mesmo, o melhor é olhá-lo, mas não vê-lo.

E o que isso tudo tem a ver com o amor? Você decide ver ou não o abismo (grandeza, conformismo, ignorância, seletividade?). As dúvidas e os medos estão dentro de nós, mas a vida é do lado de fora. Inevitavelmente, a vida é!!! E ela pode ser diferente, se você tem um amor ou não.

Escrever pra esse blog não é nada, se comparado ao amor do Felipe: “está chovendo aqui; está friozinho; vou pra casa daqui um pouco ficar na cama com a minha esposa; ler o jornal; fazer uma janta... Swift comparado a isto é pura embromação! E, ao mesmo tempo, se não tivesse um amor, seria meu dia: ler Swift”.
O amor não é lindo? O amor é lindo!

Quero um amor que me faça ganhar os sentidos: que o meu arroz com feijão fique mais gostoso, que o filme da sessão da tarde (dublado e tudo mais) seja o melhor programa, que a seca de Brasília e o calor escaldante sejam a minha certeza de existir.
Quero um amor que me faça largar o meu emprego medíocre, as minhas poucas convicções, aquilo que já não me dá segurança.
Quero um amor que viaje comigo pra Madri, pra Bali, pra Terra do Nunca ou pra Terra de Ninguém; que fique quietinho comigo em casa, se estivermos com preguiça.

Quero um amor que me ame! Porque só o amor (e a arte) pode nos fazer mais felizes!


♥♥♥
O "Falando de amor" foi publicado no Chatices Existenciais em novembro de 2005. Dediquei-o ao Felipe - um amigo intelectual, ateu, totalmente descrente da humanidade, que ficou fofo de uma hora pra hora, porque foi acertado pela flecha do Cupido!
Resolvi postar os poucos textos de que gosto do Chatices Existenciais, para excluí-lo, em breve, desse mundo virtual.
A Tatá, uma das minhas amigas geniais, também escreveu um texto que dialoga de certa forma com o Falando de amor. Ficou perfeito: Segredos.
Beijos e boa semana a todos!