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Chico de estimação

Dori (Dorival Caymmi), pai do Chicão.

Ganhei um Lhasa Apso há menos de um mês,
E batizei-o de Chico Buarque, vulgo Chicão.
Que angústia sinto ao vê-lo rejeitar os presentinhos que lhe comprei:
O puff, que era pra ele dormir confortavelmente, só serve de parque de diversões
(vira kamikaze e o Chico fica rolando pela casa em voltas de 360 graus),
Porque ele prefere dormir no chão,
E não se importa que eu queira colocá-lo na caminha,
Saindo do macio e do quente quantas vezes eu insistir.
O meu cachorrinho não é meu namorado, muito menos o primeiro,
Mas age como os meus ex, sem a menor sensibilidade do Lirista,
Fazendo pouco caso dos meus singelos cuidados.


Graziele Alencar


Achou estranho?
Ou acha que já leu algo parecido, mas não lembra onde?


Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração eu tinha
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
Ele não se importava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.


Manuel Bandeira

Clarice e eu

Conheci Lóri um mês depois de eu completar quinze anos. Ela me mostrou que existia algo muito maior do que eu havia descoberto (e continuaria descobrindo) durante toda minha vida. Porque, quando a gente nasce, vem a palmadinha (e o choro), vem o colo e o leite (e o prazer), vem o Outro (e o Eu). O Eu é só uma conseqüência, muitas vezes, ignorada.
Com a Lóri, eu me vi. Não sou mais só uma conseqüência. Posso pensar sobre o que sinto e sentir o que penso. Posso pensar no que o Outro significa pra mim e em como isto se transforma todo dia.
Passamos pelo grande desafio da subjetividade: a esfinge que não nos deixa sossegar, “decifra-me ou devoro-te”. Ela saíra agora da voracidade de viver. E eu deparei-me com a minha verdadeira essência e com a minha existência. A existência que nos aprisiona à liberdade, irremediavelmente. Mas, se meu corpo é bem menor que meu pensamento, não tenho a capacidade de fazer uso da minha liberdade (?); se minha vontade é bem maior que a minha pequena condição (aonde vai o meu corpo?), estou irremediavelmente condenada. E “a condição do Universo era tão grande que não se chamava de condição” (é agora que vejo a minha?).
Ulisses, o homem de Lóri (sim, o herói grego e também o cachorro de Clarice), diria: “a condição não se cura, mas o medo da condição é curável”. E aprendemos que se deve viver (e amar, e ser feliz!) apesar de. O apesar de gera a angústia. E é sempre bom não ter certeza de tudo. Mas a dúvida generalizada também é a porta do abismo, onde há o silêncio. O silêncio “é a profunda noite secreta do mundo”. Na noite, podemos encontrar fantasmas, mas podemos encontrar os maiores sonhos. Parece que, na noite, a liberdade enlarguece. Mas “ser grande dentro de si” pode doer. Portanto, agora é necessário aprender a ser livre pra fora; aprender, no além de ser, viver.
“Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”. Quem escreverá um pra mim? Clarices não existem nem Ulisses nem...
♥♥♥
Ainda no propósito de postar os raros textos que gosto das Chatices Existenciais, publico o "Clarice e eu" aqui. Ele é de abril de 2006.
Eu havia prometido uma continuação pra ele. Talvez ela saia por agora.