Ao vovô

Há três anos, escrevi o texto que quero postar hoje aqui, feito pro meu avô-materno, que na época completava 84 anos de vida. Foi nessa ocasião, talvez por estar tão longe dele, que descobri amá-lo mais do que eu imaginava. Ele foi uma das figuras mais fortes e mais interessantes da minha infância.
Hoje o vovô está completando 87 anos. Parabéns pra ele!

Descobri subitamente um amor tão grande em mim, um amor que nunca imaginei existir pelo meu avô. Encontrei-o depois de mais de um ano, ele já doentinho, mas com a mesma cara de sapeca, não falando coisa com coisa (que pode ser de Alzheimer ou de sua criatividade). Emocionei-me. Não sabia que amava tanto meu vozinho (parece que a falta nos revela o quanto gostamos seja lá do que).

Ele parece uma personagem de García Márquez, com suas histórias fantásticas – e muitas reais (mesmo sendo nonsenses), porque eu mesma as presenciei.

Ele gostava de trocar o nome das pessoas – a tia Rosângela sempre era a Josefina, eu podia ser a Maricota. E, se perguntássemos aonde ele ia, sempre era pra Cachoeirinha.

Ele, o senhor Cortez ou o tenente Cortez ou o Chico (pra quem queria fingir intimidade, porque esse é o único Francisco que conheço que nunca foi Chico na vida), quer ir pra Bolívia porque seus olhos ficam azuis lá (já são verdes, e uma parte de sua família mora lá).

Meu avô tem o sangue forte: todo morcego que já o mordeu morreu depois de fazê-lo. Ele gostava muito de passear pelo interior do Amazonas, dormir em rede, e, muitas vezes, ao acordar, via-se mordido com o morcego morto ao lado. Isto eu nunca vi!

Vovô já salvou a vida de muitos animais – ele criava alguns – com um remedinho milagroso, o bálsamo mundial. Certo dia, uma mucura comeu um terço de uma galinha viva (do rabo pra frente), no quintal do meu avô. Ele foi seu cirurgião: derramou meia garrafa de bálsamo dentro da galinha e a costurou. A coitada sobreviveu, mutilada sim, mas continuou cantando toda faceira pelo quintal, por muito tempo ainda; não ficou com traumas; não se importou de ter ficado sem as ancas (e galinha tem anca?); e continuou botando ovos!

O senhor Cortez gostava de misturar água no refrigerante – e não era pra economizar, porque ele nunca foi dessas coisas; ele só achava mais gostoso com água (gosto é gosto!). Se eu queria um real dele, para lanchar na escola, era melhor pedir-lhe dois, porque ele só sabia dar a metade. E, quando me buscava na escola, voltava dirigindo seu monza, ocupando toda a pista.

Nós brigávamos de vez em quando, e ele dizia a minha mãe pra ela dar um jeito “na sua filha”, porque eu reclamava e discordava dele. Mas, também, o pegava contando pros amigos como a neta dele era esperta e inteligente... ele sentia muito orgulho de mim, só porque eu tirava notas boas na escola. Meu avô sonhava comigo no colégio militar; chegou a convencer meus pais a me inscreverem para a prova de admissão lá. Mas fui mais convincente que ele: apesar de passar na prova, consegui continuar estudando na mesma escola de sempre, que eu amava.

Vovô, como pernambucano que é – e de Exu! – ainda guarda sotaque, principalmente, em palavras como “tia” e “dia”. Acho que, por isso, adoro sotaque nordestino.

Amanhã, meu vozinho vai completar 84 anos. Estamos distantes – e isto explica tantos verbos no passado – e sinto saudades. Gostaria de abraçá-lo e ouvir suas brincadeiras, de admirar sua boa imaginação, de ouvi-lo trocar meu nome e de perguntar de quem sou filha... Adoraria passar a mão na sua cabecinha branca...

Ganhei 24 margaridas!

Jana disse...

Lindo, lindo texto guria!

beijos

Dauri Batisti disse...

A mais linda leitura de hoje. Que beleza de crônica. Tão bem escrita. O texto está a altura do personagem, seu avô, figura tão criativa, pelo que você descreve.

Beijo.

Jacinta Dantas disse...

Ei menina,
gosto de histórias assim, reais, que contam a nossa história. E essa, contada por você, é linda. E que legal, 87 anos na vida do seu avô. Parabéns prá ele.
Abração

Elcio Tuiribepi disse...

Sabe o mais legal e o mais chato disso tudo...é descobrir que poderíamos ter aproveitado mais a conviv~encia com nosso avós, comigo foi um pouco assim, quando comecei a dar valor...perdi...mas, aproveiei um pouquinho e tento hoje passar esta experiência pra galerinha mais nova...minhas filhas por exemplo em relação aos avós...show de bola a crônica...acertou no alvo da minha memória...rssss

Thito disse...

Eu não conheci meu avô paterno e pouco tive contato com meu avô materno. Minhas vida é desprovida dessa figura...

Tâmara disse...

Uma delicia ler isso...
beijos!

Mentora disse...

A gente sempre é capaz de amar mais do que imagina, lindo demais
=*

Tatiana disse...

Que bela homenagem!

Acho de uma grandeza imensa... deixar a alma falar, e vc fez isso maravilhosamente bem!

Um beijo carinhoso para vc!

Stive Ferreira disse...

É bom ver algo novo por aqui!
Gostei do texto, muito bom.

Beijos.

Salve Jorge disse...

Ao vô com carinho
À você esse ninho
Ao vôo, o teu caminho...

Renato Alt disse...

Coisa mais bonita esta homenagem, menina... sincera e emocionante. Meus parabens...
Beijos!

Vanessa disse...

Queria ter conhecido o meu avô!
Beijos

Desculpe o sumiço! Andava sem net esses dias!

Iúna disse...

vc me fez chorar, lembrei de meu avôzinho que há muito se foi, de como eu passava a mão em seus cabelos ralos, de como me sentia feliz em ser sua netinha querida. é tão bom ter avô.

alvarêz drewïzqe disse...

Bacana mesmo, muito legal. Também amo muito meu avô

www;lauconfessions.com disse...

Que blog lindo amei...
parabéns pelas coisas que escreve.
bjusssssssssssssssssss

eder ribeiro disse...

Vc salvou meu dia de leitura. Que crônica gostosa de ser lida. Tive uma avô, também, que marcou muito minha infância. Aproveito para lhe desejar um Feliz Natal e um Ano Novo de paz. Até o ano que vem. Bjos.

Fernando Rozano disse...

sempre que me visitas falas que por alguma razão há no que escrevo saudade.ao te ler agora, fostes tu, Graziele, que me trouxe muita saudade, saudade dos meus avós que já não estão mais aqui, me trouxe aquele sentimento único de amor fraterno e de alma. belo e sensível...fico sem palavras. deixo meu abraço ao teu avô e par ti, um obrigado pelo texto. beijo.

Bel Fonseca disse...

Que delícia de história. Parece do García realmente. Vô é uma figura muito especial mesmo!! Beijocas da Bel.

Anderson disse...

Oi Srta.
Parabéns pelo blog, pois adorei os textos.
Beijos.


Ps. Se possivel, não deixe de visitar meu blog para compreender um pouco do meu Fetiche.

O Profeta disse...

Sabia apenas que era um pequenino naquela longa noite
No celeste um luminoso sorriso me chamava
Lançou-me aos olhos raios de deslumbrante luz
Era a minha prenda, uma brilhante…Estrela Alva…


Um Mágico Natal para ti querida amiga que ao longo deste ano me visitaste. Que a Estrela Alva te ilumine neste Natal.



Mágico beijo

A Planária Autista disse...

Que descrição poética de alguém, deu-me plena vontade de ter conhecido seu avô...

Ps: eu acho que conheço você de algum lugar... que estranho!

Ovule:
http://cruxcredus.blogspot.com/

Tatiana disse...

Hoje estou passando pra uma visita rápida
No blog das pessoas que sou seguidora...
Não poderia deixar de vir aqui e lhe dizer:
Que você consiga docemente
Viver, sentir e amar...
Que seja sempre todo coração,
inundado de um amor transparente,
apesar de todo o risco que isso possa significar!
Receba meu abraço carinhoso!
Beijos

Thito disse...

Cadê você???

Beijos

Ninha disse...

Lindooo...eu sou tão apaixonada pelo meu avô...e no natal, ele nos falou q poderia ser o último com ele presente...fiquei tão triste...

beijo