Nunca tiveram muito a se dizer

O texto a seguir é da Marina Colasanti, em "Contos de amor rasgados":

Nunca tiveram muito a se dizer

Não se falavam. Desde a noite de núpcias, quando olhando o corpo recém-possuído ele se expressara de forma pouco nobre, ela deixara de lhe dirigir a palavra.
Em silêncio, sem que jamais um se dirigisse ao outro, viveram juntos 50 anos. Data em que seus filhos, netos, noras e genros organizaram grande festa comemorativa, reunidos todos para enaltecer os patriarcas. Erguia-se justamente o brinde, de pé a família ao redor da grande mesa, quando pela primeira vez, em voz alta e clara, ela o chamou pelo nome.
Como uma bala, como uma faca, a palavra enterrou-se no peito do homem, abrindo dupla ferida. Pois embora sendo seu nome, pronunciado por aquela boca não o representava, a ele que nunca mais dera à mulher o direito de nomeá-lo. Assim ela o desrespeitava frente à descendência.
Pálido, apoiou-se com as mãos espalmadas sobre o tampo de mármore, e num impulso assassino revidou, sibilando entre dentes o nome da mulher. Ela cambaleou, levou a mão à boca como quem ampara uma golfada de sangue. Mas já a família batia palmas, e a sala toda estremecia ao som do coral doméstico que entoava Parabéns Pra Vocês.

Ganhei 3 margaridas!

Anônimo disse...

Moça, você sumiu. Lembra-se deu? Bel, beleleo. Ainda está usando esse blog? Beijocas.

Tatá Ninomia disse...

Grazie, muito forte a imagem desse texto. Triste e angustiante. Às vezes tomar a iniciativa para o que quer que seja a felicidade é complicado (ou somos nós que complicamos?) e nisso o tempo vai passando... e rápido.
Saudades.
Bjo,
Tatá

Tod(as) palavras disse...

texto de muita intensidade, característica de quem aqu ichega e lê. belo e sensível como sempre a Marina escreve. gostei muito do post, Grazi. beijo e felicidades.