Na falta da minha terapeuta


seria perfeito se quando eu me reinventasse ou quando tentasse fazer de mim algo novo que eu considerasse melhor ou mais fácil talvez as consequencias viessem como uma brisinha num dia de calor mas dentro de mim formam-se tufões e tempestades porque eu realmente quero continuar sendo inadequada e careta as pessoas me cansam com suas futilidades com o seu passar superficial pela vida o não olhar nos olhos o não falar cara a cara eu simplesmente digo não e tentar dizer sim pode me fazer doer não tenho vergonha de dizer que doi quando todo mundo tem a máscara da alegria grudada na cara de plástico eu sou sensível sim e por isso eu consigo ver os outros eu até me engano tantas vezes mas já sou dura o suficiente não posso perder a ternura como disse Che só sei que sem amor ou sem a expectativa de eu não seria a putinha de Brasília nem do príncipe William

A imagem é "Os amantes", de René Magritte, que esteve na primeira postagem deste blog e vem bem a calhar no momento.

O conto que quis ser erótico, mas não conseguiu

“Vamos”, ele disse. Eu, como um reflexo, pensei “Aonde?”, mas ainda consegui deter-me, pois ele me explicou, noutro dia, que a relação está no fim quando se pergunta isso. Obediente que sou, disse “Vamos” – não era dia de fazer birras: ele estava ali ao meu lado, todo meu.
Já era noite. Entramos no carro, e fomos por um caminho bem conhecido seu. Eu sabia que tínhamos ido por lá ontem, mas foi como a primeira vez. Eu via os vários letreiros luminosos, mas não me lembrava de nenhum.
Chegamos, enfim, ao seu lugar escolhido. Ele pediu uma suíte com banheira e com céu aberto. Achamos perfeito porque o calor era grande – a cidade estava quente, e o meu desejo por ele, contido o dia todo, me fazia queimar ainda mais.
Subi na frente, com certa curiosidade pelo quarto. De lá, podíamos ver a lua, que estava cheia, mas logo nos esquecemos dela. Chegamos à banheira juntos. Eu, um pouco tímida, o esperava...

De quando eu sabia voar


Eu tinha entre nove e onze anos, e sempre acontecia quando eu vinha em direção à descida da ladeira que havia no sítio do meu avô. Eu voava, sabe? Não era batendo os braços, como asas. Eu simplesmente planava, e sentia um ventinho suave batendo no meu rosto - eu ainda posso senti-lo se quiser, basta eu fechar os olhos - uma sensação de liberdade e a certeza de que tudo daria certo.

Não adianta a minha razão me dizer que eu não voava, porque a minha lembrança disso é muito forte, assim como a de que eu trepava no pé de azeitona-roxa (jamelão) e saía de lá com os dentes todos encardidos e a roupa manchada, ou como a de eu pegando a cadeirinha de balanço e um livro legal para me refugiar debaixo de uma árvore e passar a tarde lá.

A sensação de voar é tão boa quanto a dos domingos em que minha mãe me levava pra tomar sorvete...

*A imagem foi encontrada no Google, mas não sei de quem é.

Os três mal-amados

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.


O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.


O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.


O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.


Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.


O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.


O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.


O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.


O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.


O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

* Pintura de Picasso e texto de João Cabral de Melo Neto.


Nesses últimos dias, tenho vivido intensamente uma parte minha que considero tê-la herdado de meu pai. É a parte que me aproxima da educação, que me fez ter a petulância, um dia, de sentir-me uma iluminista. Foi ela que me fez ler tanto quando eu era mais nova. É ela que me dá curiosidade pra conhecer e aprender. Eu até digo que, em vez de língua materna, eu tenho língua paterna (e quando meu pai estava vivo, eu falava estranhamente correto). Eu fingia saber ler aos dois anos de idade (aprendi a fazê-lo com três). Uma das minhas brincadeiras favoritas era “escolinha” (eu era a professora). Fiz licenciatura na Universidade. Todos os meus irmãos também fizeram. Agora estou dando aulas. E acho que, por isso, resolvi fazer uma retrospectiva de como cheguei aqui. É o legado bom que meu pai me deixou, com o seu preço a ser pago, é claro. Mas nada deve ser barato mesmo. O que eu faço agora pra ser ouvida por esses adoráveis pestinhas?

*Encontrei a imagem do post no Google, mas não sei quem é o autor.

É por isso que vale a pena

"Vanguardas e outras subversões à parte,
nunca vai faltar amor para uma canção bonita, aquela história redonda, o
retrato
da pessoa amada"
(Leminski).

Aniversário

A cinco dias de completar 28 anos, lembrei-me de um texto que escrevi perto do meu aniversário de 25, e resolvi postá-lo aqui. Eu estava numa crisesinha existencial. Parece que as coisas estão mais fáceis agora (mas eu gosto do texto!)

Estou a poucos dias de completar um quarto de século vivido, mas não posso concluir um texto que comecei, há uns três dias, sobre o primeiro mês do ano:

'Janeiro sempre é o melhor mês do ano pra mim: tem cheiro de férias, gosto de pessoas amadas, a vontade da preguiça, o sonho de olhos aberto e o calor do meu aniversário!'

Meu início de ano vai bem, obrigada, mas estou contando com meses muito melhores para esse ano.
Estou como Gregor Samsa, com uma maçã apodrecendo no dorso, grudada, depois de ter sido atirada por alguém assustado, por não me achar muito agradável.

Tenho quase 25 anos, e não sou quem eu queria ser, quando eu tinha 12. Também não quero mais ir aonde eu já quis, não amo mais muitas pessoas por quem chorei, não ouço mais as músicas que ouvia, não tenho mais aqueles sonhos, minhas verdades irrefutáveis já são duvidosas, e eu até gosto do mau cheiro que vem da maçã.

Quando eu tinha 12 anos, podia apontar o dedo pra quem quer que fosse, porque eu ainda tinha a vida toda pela frente e, da caverna, eu só conseguia ver o futuro que tinham pintado pra mim. Era um futuro brilhante, porque eu era linda, inteligente e amada: o mundo também me receberia dessa forma. Hoje, a tinta do quadro está derretida, e eu prefiro assim: gosto do surrealismo, do dadaísmo, do fantástico.

Posso ver no meu quadro o que eu quiser? Posso classificá-lo como bem entender? Posso fazer uns acertos, passar um pano molhado, fazer uns rabiscos? Quem se importa com a aceitação do público ou com a dos especialistas no assunto?

Não sendo uma Monalisa, quero apenas poder sorrir, ter aonde e com quem ir, poder errar, chorar e voltar atrás, e começar, todo dia, “tudo novo de novo”, se for da minha vontade.

E quem quiser que pinte melhor, porque eu não tenho o talento de Picasso. E quem quiser que critique ou aprecie melhor, porque isto também é uma forma de fazer arte, não é?